{"id":304,"date":"2023-03-21T16:45:48","date_gmt":"2023-03-21T19:45:48","guid":{"rendered":"https:\/\/agemark.com.br\/projetos\/rnp\/?p=304"},"modified":"2023-03-23T15:49:45","modified_gmt":"2023-03-23T18:49:45","slug":"o-estado-laico-e-uma-bencao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agemark.com.br\/projetos\/rnp\/2023\/03\/21\/o-estado-laico-e-uma-bencao\/","title":{"rendered":"O Estado laico \u00e9 uma ben\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>A politiza\u00e7\u00e3o da quest\u00e3o religiosa no Brasil borrou as fronteiras entre pol\u00edtica e religi\u00e3o e acirrou conflitos. Campo religioso imp\u00f5e desafio \u00e0 democracia em 2023<\/p>\n<p>por Iury Batistta, para a revista Afirmativa<\/p>\n<p>A rec\u00e9m findada campanha eleitoral de 2022 foi marcada pelo sequestro da pauta pol\u00edtica por setores fundamentalistas, sobretudo l\u00edderes de denomina\u00e7\u00f5es evang\u00e9licas, apoiadores da candidatura de Jair Bolsonaro (PL). Suplantando o debate em torno das ideias e planos de governo dos candidatos \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, o que se viu foi um violento apelo ao voto evang\u00e9lico, envolvendo acusa\u00e7\u00f5es inver\u00eddicas graves contra o principal candidato de oposi\u00e7\u00e3o, Luiz In\u00e1cio Lula da Silva (PT) \u2013 que viria a ser eleito presidente em segundo turno com 50,90% dos votos v\u00e1lidos.<\/p>\n<p>O segundo turno das elei\u00e7\u00f5es mostrou-se mais expl\u00edcito na mobiliza\u00e7\u00e3o de uma linguagem com refer\u00eancias crist\u00e3s, assumindo ares de \u201cguerra espiritual\u201d entre o \u201cbem\u201d e o \u201cmal\u201d. Diante da avalanche de desinforma\u00e7\u00e3o e fake News produzidas pela campanha de Bolsonaro, o petista foi tragado ao lama\u00e7al da pauta moralista bolsonarista, for\u00e7ando sua campanha a dar sinais cada vez mais cristalinos \u00e0 parcela evang\u00e9lica de eleitores, culminando na \u201ccarta aos evang\u00e9licos\u201d lida por Lula, em que ele se comprometia com o respeito \u00e0 liberdade religiosa ao mesmo tempo em que criticava o uso pol\u00edtico da f\u00e9.<\/p>\n<p>Entre as acusa\u00e7\u00f5es mais graves estava a que dizia que, uma vez eleito, o governo petista promoveria uma implac\u00e1vel persegui\u00e7\u00e3o religiosa contra os crist\u00e3os, que veriam seus templos e igrejas serem fechados \u2013 algo que o PT nunca fez em seus 14 anos de Governo Federal. Casos recentes de persegui\u00e7\u00e3o a lideran\u00e7as religiosas cat\u00f3licas pelo regime de Daniel Ortega, presidente da Nicar\u00e1gua e ex-guerrilheiro sandinista, foram reiteradamente explorados pela campanha de Bolsonaro como forma de atemorizar esse segmento do eleitorado e alert\u00e1-lo sobre os supostos perigos da assun\u00e7\u00e3o de um governo democr\u00e1tico.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 de se ignorar que, nos \u00faltimos anos, o Brasil vem observando um forte movimento de transi\u00e7\u00e3o religiosa. O segmento evang\u00e9lico vem alterando consideravelmente essa paisagem, ganhando cada vez mais capilaridade na sociedade. De acordo com dados de 2020 do Datafolha, os evang\u00e9licos representam 31% da popula\u00e7\u00e3o e, consoante proje\u00e7\u00f5es de especialistas, esse n\u00famero chegar\u00e1 a mais da metade dos brasileiros em dez anos, desbancando a hist\u00f3rica primazia cat\u00f3lica (hoje representando 50% da popula\u00e7\u00e3o). Ali\u00e1s, \u00e9 justamente sobre os cat\u00f3licos que o campo evang\u00e9lico mais avan\u00e7a. Portanto, dialogar com esse p\u00fablico amplo \u00e9 tarefa fundamental para qualquer governo.<\/p>\n<p>Apesar do espa\u00e7o cada vez maior que as igrejas evang\u00e9licas v\u00eam ganhando no pa\u00eds, n\u00e3o s\u00f3 em termos de adeptos como tamb\u00e9m de presen\u00e7a nos \u00e2mbitos do poder pol\u00edtico e institucional \u2013 com uma bancada de deputados federais espec\u00edfica -, lideran\u00e7as de perfil midi\u00e1tico costumam propalar entre sua membresia a tese de que no Brasil opera o que denominam de \u201ccristofobia\u201d, ou seja, uma esp\u00e9cie de discrimina\u00e7\u00e3o organizada e articulada por parte de setores progressistas da sociedade em rela\u00e7\u00e3o a essa parcela da popula\u00e7\u00e3o e aos valores que comungam.<\/p>\n<p>A comunidade evang\u00e9lica, como qualquer outra comunidade religiosa, possui o direito de denunciar junto ao poder p\u00fablico casos e situa\u00e7\u00f5es de intoler\u00e2ncia religiosa, isto \u00e9, em que h\u00e1 cerceamento ou desrespeito ao exerc\u00edcio de sua f\u00e9, cabendo ao Estado brasileiro, por interm\u00e9dio de suas institui\u00e7\u00f5es, dar guarida \u00e0s acusa\u00e7\u00f5es e garantir sua prote\u00e7\u00e3o, tendo em vista que esse \u00e9 o cerne da ideia de Estado laico.<\/p>\n<p>Entretanto, ao se observar os dados sobre viol\u00eancia religiosa percebe-se que o discurso da cristofobia n\u00e3o encontra qualquer respaldo na realidade. O Disque 100, servi\u00e7o dispon\u00edvel \u00e0 sociedade brasileira para a den\u00fancia de viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos, revela que os principais alvos da intoler\u00e2ncia religiosa no pa\u00eds s\u00e3o, em verdade, as religi\u00f5es de matriz africana, como o candombl\u00e9 e a umbanda, e os seus adeptos.<\/p>\n<p>S\u00e3o essas religi\u00f5es \u2013 que t\u00eam baixa representatividade pol\u00edtica na arena institucional \u2013 que experimentam uma forma de intoler\u00e2ncia mais aguda, visto que se articula com o racismo imperante no Brasil, conformando o fen\u00f4meno do racismo religioso. T\u00e3o perenes como as pr\u00e1ticas religiosas dos africanos escravizados no Brasil s\u00e3o as amea\u00e7as que elas sofrem desde suas origens: ontem pelo Estado e a Igreja Cat\u00f3lica, hoje por denomina\u00e7\u00f5es neopentecostais.<\/p>\n<p>A politiza\u00e7\u00e3o da quest\u00e3o religiosa no Brasil pelo governo de Jair Bolsonaro borrou as fronteiras entre pol\u00edtica e religi\u00e3o e acirrou os conflitos em torno dos sentidos do Estado laico, conformando um grande desafio para o pr\u00f3ximo governo. No cerne dessa tens\u00e3o est\u00e1 um conjunto de pautas relativas a direitos humanos (modelos diversos de fam\u00edlia, aborto, drogas, sexualidade), encarada por setores conservadores de cat\u00f3licos e evang\u00e9licos como temas inegoci\u00e1veis, travando o debate sobre temas sens\u00edveis \u00e0 sociedade em nome de uma posi\u00e7\u00e3o manique\u00edsta nociva \u00e0 pr\u00f3pria democracia.<\/p>\n<p>Apesar das dificuldades impostas, o governo eleito do presidente Lula ter\u00e1 que abrir o di\u00e1logo pol\u00edtico com os evang\u00e9licos a partir das brechas que esse segmento heterog\u00eaneo oferece, de modo que a tem\u00e1tica n\u00e3o se restrinja \u00e0 manipula\u00e7\u00e3o feita por pastores fundamentalistas.<\/p>\n<p>Embora as elei\u00e7\u00f5es de 2022 tenham demonstrado um cen\u00e1rio de consolida\u00e7\u00e3o de uma direita crist\u00e3, a virada no tabuleiro pol\u00edtico nacional j\u00e1 provocou mudan\u00e7as no comportamento de figuras evang\u00e9licas proeminentes que apoiaram abertamente Bolsonaro e ajudaram a demonizar a imagem de Lula e do PT. Lideran\u00e7as como o pastor Silas Malafaia e o bispo Edir Macedo estiveram ao lado de Lula em seus dois primeiros governos e s\u00e3o muito h\u00e1beis politicamente em modular seus discursos de maneira a n\u00e3o se afastarem do centro do poder. Todavia, ao acenar para esse grupo, caber\u00e1 ao novo governo manter uma postura altiva de modo a n\u00e3o capitular diante da agenda ultraconservadora.<\/p>\n<p>Por outro lado, a ascens\u00e3o de uma ala progressista evang\u00e9lica que apoiou a candidatura de Lula e se expressou na elei\u00e7\u00e3o do pastor Henrique Vieira (PSOL-RJ) \u00e0 C\u00e2mara dos Deputados abre um canal mais arejado de comunica\u00e7\u00e3o que precisar\u00e1 ser fortalecido.<\/p>\n<p>A partir de 2023, teremos um governo com uma capacidade maior de escuta aos movimentos que atuam em defesa dos direitos humanos, nesse sentido, e diante do quadro de viola\u00e7\u00f5es, ser\u00e1 preciso haver demonstra\u00e7\u00f5es mais s\u00f3lidas no que se refere ao combate \u00e0 intoler\u00e2ncia contra as religi\u00f5es afro-brasileiras.<\/p>\n<p>Cabe dizer que a futura primeira-dama, a soci\u00f3loga Janja, \u00e9 adepta das religi\u00f5es de matriz africana e pode ser uma importante aliada na defesa dessa tradi\u00e7\u00e3o, sem que isso implique em qualquer tipo de prefer\u00eancia religiosa, como ela declarou em diversas oportunidades, diferente do que foi visto nos quatros anos de governo Bolsonaro em rela\u00e7\u00e3o aos evang\u00e9licos.<\/p>\n<p>Assim, o di\u00e1logo com evang\u00e9licos \u2013 assim como com indiv\u00edduos de outras confiss\u00f5es religiosas \u2013 precisa ser feito amparado nos princ\u00edpios da laicidade do Estado brasileiro, na medida e na forma que seus princ\u00edpios expressam, como a n\u00e3o interfer\u00eancia de correntes religiosas em assuntos estatais e de governo, apartando o p\u00falpito da tribuna.<\/p>\n<p>\u2014<\/p>\n<p><em>Este artigo integra a s\u00e9rie \u201cIdeias para um Brasil democr\u00e1tico\u201d, conjunto de textos que pretendem contribuir com a reconstru\u00e7\u00e3o do Brasil e com a necess\u00e1ria democratiza\u00e7\u00e3o da nossa democracia. A s\u00e9rie \u00e9 uma iniciativa do Intervozes \u2013 Coletivo Brasil de Comunica\u00e7\u00e3o Social e da Plataforma dos Movimentos Sociais pela Reforma do Sistema Pol\u00edtico.<\/em><\/p>\n<p><em>*<strong>Iury Batistta<\/strong> \u00e9 pesquisador, mestre em Estudos \u00c9tnicos e Africanos (UFBA) e integrante do Intervozes \u2013 Coletivo Brasil de Comunica\u00e7\u00e3o Social.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A politiza\u00e7\u00e3o da quest\u00e3o religiosa no Brasil borrou as fronteiras entre pol\u00edtica e religi\u00e3o e acirrou conflitos. 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